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5 frases de Ricardo Lísias que explicam Fisiologia da Idade

"Completei quarenta anos na semana passada."

É assim que começa o conto Fisiologia da Idade, do paulista Ricardo Lísias. Daí eu, leitora muito tolinha, me precipitei: "ahhh, deve ser um livro sobre crise da meia-idade". Os parágrafos posteriores até reforçaram minha ideia: o narrador prometeu que recordaria a primeira metade da vida, quando tudo o que fazia era ler e jogar xadrez. "Um conto das memórias infantis", pensei. Mas mais uma lidinha, e percebi que era melhor ficar bem esperta. 

"Só gente muito ingênua acredita em autobiografia. E apenas hipócritas afirmam que estão contando o próprio passado."

Pois é, com esse autor, nada era o que prometia, e, quanto mais eu me sentia enganada, mais mergulhava no texto, que parecia um diário sobre as tentativas de escrever. Eu definiria como um conto sobre escrever um conto.

"Como o Brasil chegou a um número tão grande de romances que não incomodam ninguém?"

Em um determinado momento, o cara decide reler quadrinhos que curtia na infância para ver se resgatava algo. Mas não rola, e isso fica como um pano de fundo para que o narrador possa disparar contra seus colegas de profissão, contra a colunista que criticou as cotas, contra os parisienses, contra os bancos e tudo mais o que está aí. É rabugento, sim, mas eu, particularmente, acho que o mau humor pode ser divertidíssimo.

"Entenda que além de enfrentar dificuldades por causa da linguagem, de ficar horas procurando um estilo mais adequado e de tentar me despir da hipocrisia que cerca a arte, não sou responsável pelo que você enxerga."

Pelo visto, o povo enxergou com bons olhos esse esforço todo, pois a obra é semifinalista na categoria Contos do Oceanos, o mais importante prêmio de literatura da língua portuguesa. Torço não só pelo texto de Lísias, como também torço pela editora que publicou a obra, a e-galáxia (parceira do Shereland!), que é especializada em livros digitais. Acho que essa indicação é a prova de que o formato não interessa, livro bom é livro bom.

Para finalizar, escolhi uma frase simples de Fisiologia da Idade, mas que define todo o amor pela literatura que eu (e possivelmente você) sinto pela literatura:

"Mesmo falido, nunca consegui parar de comprar livros e comer."

Se interessou? Clique aqui para saber como baixar o livro.

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Amazon vai ter Kindle para ler mangás

Fãs de quadrinhos japoneses, mantenham a esperança! A Amazon anunciou o lançamento do Kindle Paperwhite Manga Model, um dispositivo com recursos extras para quem deseja ler mangás digitais.

O novo modelo foi desenvolvido em cima do já existente Paperwhite, ou seja, tem a mesma resolução, tela luminosa, touchscreen etc.. A diferença é a capacidade de 32 GB (28 GBs a mais que o tradicional) para conseguir armazenar os mangás sem que o desempenho do aparelho fique sofrível.

Legal, né? Agora posso contar a parte ruim? Por enquanto, será vendido só no Japão e não tem previsão para se espalhar pelo resto do mundo. O preço é de US$ 157, enquanto o Paperwhite, na Amazon.com, é US$ 119 (no Brasil, é R$ 479).

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A (não) literatura feminina segundo Lygia Fagundes Telles e Rosa Montero

Lygia Fagundes Telles é uma escritora brasileira de 93 anos. Seu primeiro livro assumido é Ciranda de Pedras, de 1954. Desde então, publicou mais três romances, incontáveis contos e até roteiro de cinema. Estudou Direito no Largo São Francisco, educação física, praticava esgrima e, de acordo com depoimento do escritor Ricardo Ramos, era uma das únicas mulheres a fumar em público na década de 1940.

Rosa Montero é uma escritora espanhola de 65 anos. A primeira obra é de 1976, mas continua na ativa e acaba de lançar o ainda inédito no Brasil La Carne. É jornalista no tradicional El País e recebeu diversos prêmios por seu trabalho nessa área.

Por que estou comparando as duas? Porque ambas são autoras de peso e que já vi se declararem contra o termo 'literatura feminina'. Vejam o que elas falam sobre o assunto:

Lygia Fagundes Telles no programa Roda Viva em 1996

"Eu não faço distinção hoje de literatura feminina e literatura masculina. Eu não faço esse divisor de água. A divisão de águas está em relação à qualidade. Há escritores que escrevem bem e escritoras que escrevem bem. Escritores que escrevem mal e escritoras que escrevem mal."

Apesar disso, Lygia acredita que a opressão às mulheres acabou gerando uma particularidade no ponto de vista:

"A literatura escrita pela mulher tem certas características dentro da nossa condição mesmo, há um subjetivismo talvez maior. Eu vejo nesses diários de capas acetinadas com pombinhas, coraçõezinhos pintados, eu vejo o início desta literatura intimista, subjetiva. Seria a fonte primária das mulheres tentando se dizer, tentando se explicar, tentando desembrulhar. A mulher é mais embrulhada do que o homem, porque ela foi obrigada a ser mais embrulhada. Aqui no Brasil, a mulher calada, ela sai e vai para a cozinha fazer goiabada. Tanto é que eu chamo, sem ironia, mulher-goiabada. Mamãe quis ser cantora, tinha uma voz linda, mas o pai achava que aquilo não era uma condição de uma moça fina da alta sociedade, então ela casou-se, mas ela foi frustrada na sua primeira vocação e foi fazer doces de goiaba."

Clique aqui para ler mais sobre essa entrevista de Lygia Faguntes Telles

Rosa Montero no livro de ensaios A Louca da Casa

"Quando uma mulher escreve um romance protagonizado por uma mulher, todo mundo considera que está falando das mulheres; mas se um homem escreve um romance protagonizado por um homem, todo mundo considera que está falando do gênero humano."

A espanhola acredita que o fato de um escritor viver no campo e outro viver em uma cidade grande interfere muito mais no ponto de vista do que a questão de gênero, mas vê com bons olhos o aumento de livros escritos por mulheres invadindo o mercado:

"E já é hora de os leitores homens se identificarem com as protagonistas mulheres, da mesma maneira que durante os séculos nós nos identificamos com os protagonistas masculinos, que eram nossos únicos modelos literários; porque essa permeabilidade, essa flexibilidade do olhar nos tornará a todos mais sábios."

Você acha que devemos restringir mulheres que escrevem à categoria de 'literatura feminina'? Deixe sua opinião nos comentários. E se quiser se aprofundar no tema mulheres e literatura, recomendo fortemente a leitura do ensaio Um Teto Todo Seu, de Virginia Woolf.

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5 regras que aprendi com Viva a Língua Brasileira, de Sérgio Rodrigues

Sei que não tenho qualquer direito de dizer que você deveria ler isso ou aquilo, mas realmente acho que você tem de dar uma chance para Viva a Língua Brasileira, de Sérgio Rodrigues. Sim, resumindo bem resumido é um livro sobre gramática - na Amazon aparece classificado na categoria de Manuais e Anuários - mas é divertido e fluido, sério!

O grande diferencial (e espero estar usando essa palavra no contexto correto) é que Rodrigues é um jornalista, não um gramático (era dele o blog Sobre Palavras, da Veja), então creio que seu objetivo é pensar sobre a língua e suas transformações, não estipular normas.

De uma forma muito dinâmica, o escritor tira as dúvidas mais comuns (a pronúncia é Rorãima ou Roráima?), questiona os modismos, relembra a origem de algumas expressões (aquele papo, por exemplo, de que forró vem de 'for all' é balela) e, em um dos meus capítulos favoritos, desnuda o dialeto corporativista.

Como meu propósito aqui é te incentivar a buscar esse livro, tentarei não revelar demais, mas elenquei regras que estipulei para mim mesma depois de ter lido Viva a Língua Brasileira:

1. Desconfie de toda norma que aparece do nada

"Antes de mais nada não existe", "em anexo está errado", "autoanálise é pleonasmo" e blá-blá-blá.... Sabe aquele tipo de regra que o povo sai compartilhando no Facebook? Pois a maioria é invenção de quem não sabe do que está falando.

Um dos exemplos que Sérgio Rodrigues usa é o tal de 'lindo de viver', que deveria ser usado no lugar de 'lindo de morrer'. Adivinha quem difundiu essa máxima? Hebe Camargo. OK, ela era diva, mas não era gramática, né?

2. Pare de menosprezar pessoas que escorregam no português

Primeiro porque, desde sempre, a língua é feita do que as pessoas falam, portanto da mesma forma que abrupto' passou a ser aceito no lugar do original 'ab-rupto', é provável que, daqui a alguns anos, liberem o 'perca' de tempo. Segundo porque o errado pode ser você (já vi gente torcendo o nariz para a a correta expressão "em anexo").

3. Não julgue quem empregou uma expressão que você ouviu dizer que é politicamente incorreta

É feio dizer 'homossexualismo' porque o sufixo 'ismo' era usado para se referir a doenças, certo? Não é bem assim. A gente pode até escolher eliminar do nosso vocabulário palavras e expressões que parecem ofensivas a um grupo, mas daí a sair dando lições de moral baseado em algo que você ouviu alguém (não linguista) dizer pode ser tornar um mico.

4. Encher seu texto de palavras estrangeiras é tão 'out'

Não dá para lutar contra a invasão de palavras gringas no nosso cotidiano. Isso é até necessário, quando não temos um equivalente em português (ou vamos dizer que um 'drone' é um 'avião não tripulado'?). Mas ficar optando pelo inglês quando temos o correspondente em português, aí, 'sorry', é pura falta de vocabulário. 

5. Não repita uma palavra só porque ouviu o pessoal da firma dizer

Antes de inputar adicionar uma palavra nova no seu vocabulário, olhe seu significado no dicionário! Descobri que grande parte das palavras que ouço meus superiores dizerem (e que já caí na besteira de repetir para parecer mais profissional) em reuniões são equívocos. Ou você pensa que assertivo é sinônimo de acertado? 

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Mais 6 murais de Kobra ligados à literatura

Depois que o Shereland publicou o post sobre o lindíssimo mural que o brasileiro Eduardo Kobra realizou em Amsterdã para homenagear Anne Frank, a assessoria do artista entrou em contato conosco para mostrar outras obras de Kobra ligadas, de um jeito ou de outro, à literatura.

Sério: é uma mais incrível que a outra, dá uma olhada:

1. Mural Alfred Nobel, em Bora, na Suécia

OK, Alfred Nobel não era escritor: ele foi o químico que inventou a dinamite e o detonador. No entanto, quando percebeu que sua criação estava sendo usada para fins maléficos, resolveu usar seu dim-dim para premiar pessoas que contribuíam para o bem da humanidade. Surgia assim, entre outros, o Prêmio Nobel de Literatura, aquele evento que a gente ama odiar :)

A homenagem de Kobra foi criada em 2014 e tem 6 metros de altura por 10 de comprimento. 

2. Mural Bob Dylan - Os Tempos Estão Mudando, em Minneapolis, nos Estados Unidos

E falando em Nobel de Literatura... Antes mesmo do cantor ser laureado com o prêmio, em 2015, Kobra fez essa pintura gigantesca (50 metros de largura por 28 metros de altura) em um prédio localizado na esquina da Henneping com a S. 5th Street.

3. Mural Hamlet, em West Palm Beach,na Flórida, nos Estados Unidos

Ser ou não ser? No fim de 2015, a cena mais célebre da tragédia de Shakespeare virou essa obra de arte na fachada do teatro Dramaworks Theater. Particularmente, é meu favorito de todos.

4. Dante Alighieri, em Ravena, na Itália

No mês passado, Kobra representou Dante Alighieri na cidade onde o escritor morreu.

5. Chico e Ariano em São Paulo

Em 2014, foram feitos os retratos de Chico Buarque e Ariano Suassuna nas paredes da Fnac Pinheiros, na avenida Pedroso de Morais.

6. O Condicionado, em São Paulo

Uma homenagem à mudança na vida de Raimundo Arruda Sobrinho, um senhor que morou na rua por 30 anos e conseguiu publicar um livro de poemas após receber ajuda nas redes sociais. O mural está na Rua Harmonia, na Vila Madalena, e foi feito em 2015.

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